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Como criar um plano de retenção e descarte de dados pessoais

Equipe Confidata·
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"Guardar mais é mais seguro." Esse pensamento intuitivo é um dos maiores inimigos da conformidade com a LGPD. Dados armazenados além do necessário são dados expostos desnecessariamente — e a lei é explícita: quando a finalidade é atingida, os dados devem ser eliminados.

Mas "eliminar quando necessário" exige saber, com precisão, quando isso acontece. É exatamente para isso que serve o plano de retenção e descarte.


O que a LGPD exige sobre retenção e descarte

Término do tratamento (Art. 15)

O Art. 15 da LGPD define as hipóteses em que o tratamento de dados pessoais deve ser encerrado:

HipóteseDescrição
I — Finalidade alcançadaOs dados cumpriram o objetivo para o qual foram coletados e não são mais necessários
II — Fim do período de tratamentoO prazo definido para o tratamento expirou
III — Comunicação do titularO titular revogou o consentimento ou solicitou eliminação dos dados — quando não há outra base legal que sustente o tratamento
IV — Determinação da ANPDA autoridade nacional determinou o encerramento por violação da LGPD

Eliminação e hipóteses de conservação (Art. 16)

Encerrado o tratamento, a regra geral é a eliminação dos dados (Art. 16, caput). A lei, porém, prevê quatro hipóteses em que os dados podem ser conservados mesmo após o término:

HipóteseBase
I — Obrigação legal ou regulatóriaO controlador é obrigado por lei a manter os dados por determinado prazo
II — Pesquisa por órgão de pesquisaDados podem ser mantidos para fins de pesquisa, garantida a anonimização sempre que possível
III — Transferência a terceiroDesde que respeitados os requisitos de tratamento da LGPD
IV — Uso exclusivo do controladorDados mantidos internamente, com acesso de terceiros vedado e dados anonimizados

Na prática, a hipótese I — obrigação legal — é a mais relevante para a maioria das organizações. Ela justifica manter dados mesmo após o término da relação principal, pelo tempo exigido pela legislação aplicável.


Os prazos legais: o que dizem outras leis

A LGPD não define prazos de retenção específicos — ela delega esse papel à legislação setorial e ao princípio da necessidade. São as outras leis brasileiras que estabelecem por quanto tempo os dados precisam (ou podem) ser mantidos.

A tabela abaixo apresenta os principais prazos por área, que devem embasar a tabela de temporalidade da sua organização:

Trabalhista e previdenciário

Tipo de dadoPrazo mínimoBase legal
Contratos de trabalho, holerites, CTPS5 anos após rescisãoArt. 7º, XXIX da CF/88 (prescrição trabalhista)
Dados de FGTS30 anosLei nº 8.036/1990
Contribuições previdenciárias (CNIS)10 anosLei nº 8.213/1991
CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)20 anosResolução INSS
eSocial5 anos (ou conforme retenção tributária)Instrução Normativa RFB

Tributário e fiscal

Tipo de dadoPrazo mínimoBase legal
Documentos contábeis e fiscais5 anos (prescrição)Art. 174 do CTN
Decadência para lançamento tributário5 anos (regra geral)Art. 173 do CTN
Nota fiscal eletrônica (NF-e)5 anosConvênio ICMS e legislação federal
Dados de operações com exportaçõesAté 10 anos em casos específicosRegulamento Aduaneiro

Relação com consumidores

Tipo de dadoPrazo mínimoBase legal
Reclamações e dados de atendimento ao consumidor5 anosArt. 27 do CDC (prescrição da ação de reparação)
Dados de contratos de consumo5 anos após extinção do contratoCDC + CC
Dados de cadastro de crédito (negativação)5 anos (limite de manutenção no banco de dados)Art. 43, §1º do CDC

Saúde

Tipo de dadoPrazo mínimoBase legal
Prontuário médico (em papel)20 anos após o último registroResolução CFM Nº 1.821/2007
Prontuário eletrônicoIndefinido (enquanto existir o estabelecimento)Resolução CFM Nº 1.821/2007
Exames complementares digitaisAté 20 anosResolução CFM
Dados de pesquisa clínicaMínimo 5 anos após publicaçãoResolução CNS Nº 466/2012

Financeiro e bancário

Tipo de dadoPrazo mínimoBase legal
Dados de operações de crédito5 anos após quitaçãoResolução CMN
Dados de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD/FT)10 anosLei nº 9.613/1998
Dados de abertura de conta (KYC)5 anos após encerramentoResolução BCB Nº 1/2020

A tabela de temporalidade: o coração do plano de retenção

A tabela de temporalidade é o documento central do plano de retenção. Ela mapeia, para cada tipo de dado ou conjunto de dados, três informações fundamentais:

  1. Prazo de retenção: por quanto tempo o dado deve ser mantido
  2. Base da retenção: por que está sendo mantido (finalidade + base legal)
  3. Destino após o prazo: eliminação segura, anonimização ou transferência

Estrutura básica de uma tabela de temporalidade

Tipo de dadoDepartamentoFinalidadeBase da retençãoPrazoDestino
Currículo de candidatos não selecionadosRHProcesso seletivoConsentimento (Art. 7º, I)90 dias após encerramento do processoEliminação segura
Dados de funcionário (admissão, contrato)RHGestão trabalhistaObrigação legal (Art. 7º, II)5 anos após rescisãoEliminação segura
Dados de FGTSRH/FinanceiroCumprimento legalObrigação legal30 anosArquivo morto → eliminação
Notas fiscais de clientesFinanceiroObrigação fiscalObrigação legal5 anosEliminação segura
Dados de atendimento ao clienteSACHistórico e defesa judicialExercício de direitos (Art. 7º, VI)5 anos após atendimentoEliminação segura
Prontuário médico de colaboradoresSaúde OcupacionalCumprimento legalObrigação legal20 anos após último registroArquivo morto → eliminação
Dados de leads não convertidosMarketingMarketing (consentimento)Consentimento12 meses ou até revogaçãoEliminação segura
Logs de acesso a sistemasTISegurança e auditoriaLegítimo interesse (Art. 7º, IX)6 a 12 mesesEliminação

Procedimentos seguros de eliminação e descarte

Eliminar dados pessoais não significa apenas "deletar o arquivo". É necessário garantir que os dados não possam ser recuperados por meios razoáveis — e que o processo de eliminação seja documentado.

Para dados digitais

  • Exclusão lógica seguida de sobrescrita: simplesmente deletar um arquivo não elimina os bytes do disco — use ferramentas de sobrescrita segura (ex.: NIST 800-88, DoD 5220.22-M)
  • Destruição criptográfica: se os dados estão criptografados, destruir a chave de criptografia torna os dados irrecuperáveis sem precisar sobrescrever bit a bit
  • Desgauss (desmagnetização): para mídias magnéticas (HDs antigos), desmagnetização total elimina os dados fisicamente
  • Destruição física: para mídias que não serão reutilizadas (HDs defeituosos, fitas LTO), destruição física certificada é a opção mais segura
  • Para dados em nuvem: verificar os mecanismos de eliminação garantida oferecidos pelo provedor (em conformidade com o DPA celebrado com o controlador)

Para dados em papel

  • Fragmentação segura: fragmentadoras de nível P-4 ou superior (corte cruzado) para documentos com dados pessoais
  • Serviço de destruição certificada: empresas especializadas que emitem certificado de destruição (rastreabilidade do processo)

Documentação da eliminação

Para fins de accountability (Art. 6º, X da LGPD), documente cada ciclo de descarte:

  • Data da eliminação
  • Tipos de dados eliminados
  • Sistemas ou localidades afetados
  • Método utilizado
  • Responsável pela execução

Como criar e implementar o plano de retenção

Passo 1: Inventário de dados como ponto de partida

O plano de retenção não pode ser criado sem o inventário de atividades de tratamento (ROPA). Para cada atividade mapeada, você precisa saber:

  • Quais dados são tratados
  • Qual a finalidade
  • Qual a base legal
  • Onde estão armazenados

Passo 2: Identifique os prazos legais aplicáveis

Para cada tipo de dado no inventário, identifique se existe obrigação legal de retenção por prazo específico. Consulte o jurídico interno ou externo para levantar as normas setoriais aplicáveis ao seu negócio.

Passo 3: Para dados sem obrigação legal, defina o prazo pela finalidade

Quando não há prazo legal definido, o prazo de retenção deve ser o mínimo necessário para atender à finalidade declarada ao titular. Documente a lógica desta decisão.

Passo 4: Defina o processo de eliminação para cada categoria

Determine, para cada tipo de dado:

  • O gatilho que inicia a contagem do prazo (data de coleta, data de término do contrato, data da última transação...)
  • Quem é o responsável pela verificação e execução do descarte
  • O método de eliminação aplicável

Passo 5: Automatize onde possível

Processos manuais de eliminação são frágeis — dependem de lembranças e de disciplina que nem sempre existem. Sempre que possível, configure:

  • Expiração automática de registros em sistemas (CRM, bancos de dados)
  • Alertas automatizados quando o prazo de retenção se aproxima
  • Relatórios periódicos de dados próximos ao vencimento

Passo 6: Revise a tabela periodicamente

A tabela de temporalidade deve ser revisada ao menos anualmente e sempre que:

  • A organização iniciar um novo processo de tratamento
  • Uma nova lei ou regulamento estabelecer prazo diferente
  • O mapeamento de dados revelar categorias não cobertas

Erros comuns e como evitá-los

ErroConsequênciaSolução
Sem tabela de temporalidade documentadaImpossível demonstrar compliance para a ANPDCriar e manter tabela atualizada
Prazo "indefinido" sem base legalViolação do princípio da necessidade (Art. 6º, III)Todo dado precisa de prazo ou base para conservação
Deletar arquivo sem sobrescritaDado ainda recuperável por ferramenta de recuperaçãoUsar método de eliminação segura
Prazo igual para todos os dadosDesrespeito às especificidades legais de cada áreaMapear prazos por tipo e área
Não incluir mídias físicas (papel, pen drives, HDs)Dados físicos igualmente protegidos pela LGPDIncluir todas as mídias no processo
Esquecer dados em backupsBackup contém dados que deveriam ter sido eliminadosDefinir política de retenção também para backups

Conclusão

O plano de retenção e descarte transforma uma obrigação legal abstrata em processo operacional concreto. Sem ele, sua organização acumula dados além do necessário — aumentando o escopo de risco em caso de incidente e expondo-se a autuações da ANPD pelo descumprimento do princípio da necessidade.

A tabela de temporalidade não é um documento de arquivo — é um instrumento vivo de governança. Mantenha-a atualizada, automatize o controle de prazos e documente cada ciclo de eliminação.


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